sexta-feira, janeiro 20, 2006

Tempos "mudernos"

Orgasmos pálidos e prazeres esquálidos
Riso sem boca na boca de amores frígidos
A musa anêmica em prateleiras empoeiradas
E os granjeios de Circe, sucesso nas paradas
Tocam no rádio, tevê, via satélite, virtual
Pandemia neurastênica, insipiência global
Quando o torpor midiático em doses homeopáticas
Angaria o portentoso rebanho das almas apáticas

(Jadiel Matos)


domingo, dezembro 04, 2005

A verdade é uma puta que nunca se despe!

A Verdade é uma bela puta,
Meretriz que nunca se despe!
De sol à sol em sua vil labuta
Ganha dos tolos adornos e veste

Seus amantes são numerosos,
Possui a todos e nunca é possuída
Suas carícias e afagos ardilosos
Faz do sábio criança coagida

E assim satírica ludibria os cafetões
Que alimentam de propina a doce amada
Querendo-na presa em seus porões

Foram à sua cata na celeste arcada
Mas, pra desalento de seus corações
A puta-donzela jamais será desposada

(Jadiel Matos)


quinta-feira, dezembro 01, 2005

Pessoa além da alma

Estava agora a pouco lendo um livrinho de bolso de Fernando Pessoa no qual há um pequeno compêndio de "poesias inéditas" de 1919-1935 do poeta.

Transcrevo a seguir o que eu considerei uma pequena "ode à razão". Nesse poema, Pessoa notadamente corteja o uso superior das faculdades mentais, em detrimento da clausura dos sentidos e da lógica pífia, admitindo a experiência empírica como um processo heurístico de construção e polidez do espírito razoável "superior". Genial, como sempre!

Segue a baixo a poesia referida.


Glosas

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.
O vento vão, que as folhas vãs enroda,
Figura nosso esforço e nosso estado.
O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita
A possibilidade erma e infinita
De onde o real emerge inutilmente,
E cala, e só para pensares sente.

sexta-feira, setembro 02, 2005

A crise política e a dialética perene


“"O passado é o maior profeta do futuro”, dizia Lord Byron com o ar fatalista de quem conhece bem as engrenagens da grande máquina do tempo. O eterno devir não se olvida aos olhos de quem, como Byron, reconhece nos fatos pretéritos a razão de ser, como que uma energia propulsora de causalidade quase determinista, dos acontecimentos futuros. Dentro dessa perspectiva, em meio a uma conjuntura política pouco ou nada mutável em sua semântica, a previsibilidade dos fatos equivale a resolução de um sistema simples de sucessão como em uma progressão aritmética. Outrora designada e idealizada como a “ciência” administrativa das Polis, a política, para o espírito contemporâneo, tem assumido uma denotação que transcende a da gestão de liderança estatal, se configurando num conjunto de técnicas normativas capazes de conferir a um político ou partido o respaldo necessário para mantê-lo simpático aos olhares da opinião pública, seja por meio das portentosas campanhas eleitorais, seja pela garantia da governabilidade através de lobbys partidários ou, em casos mais extremos, pela compra de votos de parlamentares, recentemente batizada de “mensalão”. Em face ao advento de tantos neologismos e práticas de manobras (anti)constitucionais, convém representar distintamente a arte e ciência de governar e a técnica de criar personagens populares. A primeira se relaciona ao universo da Política, enquanto que a segunda denomina-se “Politicagem”.

Se a conversão dos sistemas dinásticos autocráticos em regimes eleitoreiros frutos da revolução burguesa encetou o modelo democrático de participação popular, não tardou muito até que o poder de decisão das massas sobre os rumos do estado fosse novamente abafado e o ideal iluminista com seu pretenso modelo de igualdade, liberdade e fraternidade, servisse como pano de fundo para regimes totalitários como o Stalinismo e o Nazismo. Mais uma vez a truculência, a corrupção e a pulsão de dominação, imanentes ao ser humano, deram conta de se manifestar, desta vez, entre as arestas do sistema republicano. Cresce nesse período o uso da propaganda, mãe por excelência da politicagem, conferindo aos autocratas uma via de instauração de regimes vampirescos mais ou menos disfarçados de democracia.

Tal consecução de regimes totalitários, em oscilação com tentativas de emancipações populares ao longo da história, denota uma oposição dialética entre a repressão e manifestação do instinto de dominação em âmbito macro-social, em paralelo à relação entre a necessidade sádica de controle que têm alguns espíritos e a tendência submissa da grande massa.

No contexto tupiniquim, a falta de discernimento da população, somada ao quadro de impunidade e permissividade, têm garantido o grande êxito da prática extrativista brutal em solo nacional. A máquina política há muito tempo funciona com um combustível bem peculiar onde o tráfico de influências sempre foi prática comum, e não é sem muito esforço que se pode transformar todo um esquema já tão arraigado no sistema político nacional. Os erros cometidos pela atual gestão federal do PT trazidos à baila recentemente, nada mais foram do que uma forma de adequação dos atuais governantes ao modelo vigente no congresso. Com isso, a perspectiva de mudança fica cada vez mais remota e a dialética Marxista da luta de classes cada vez mais estranha ao nosso modelo político-social. Quando o maior partido representante das classes populares se deixa engolir pelo status quo, a falta de representatividade dessas classes implica numa dialética platônica, onde não há um elemento novo surgido da síntese entre as partes antagônicas. Ao invés disso, vivemos num sistema onde as partes opostas convivem desarmoniosa, porém pacificamente, numa dialética estéril onde uma parte sobrepuja a outra. Infelizmente, a sobrepujada é, e sempre será, a grande maioria.

Jadiel Matos

jadielmatos@gmail.com


quinta-feira, agosto 25, 2005

Do conteúdo...

Esse sítio ainda se encontra em fase embrionária. Por hora , devido à minha total inexperiência com blogs, ainda estou me familiarizando com a navegabilidade, utilização de ferramentas, configurações, etc. Também por conta dos afazeres acadêmicos, não estou tendo o tempo adequado pra me dedicar à postagens da forma como pretendia, mas em breve deverei estar publicando aqui algum conteúdo interessante dentro do escopo proposto nesse espaço. Até lá, postarei alguns trabalhos acadêmicos já prontos e outros que estão por vir.

Jadiel Matos.

História da Psicologia Social - Parte I


Do ponto de vista cronológico, o advento de uma Psicologia Social se aproxima do surgimento da própria Psicologia enquanto ciência independente. Ambas as realizações estavam entre as três metas que Wunt estabelecera para sua carreira profissional, sendo que ao final da sua vida cumpriu aquilo a que se propôs. A primeira delas se efetivou com a criação do seu laboratório de Psicologia em Leipzig, Alemanha, voltado à experimentação e cujo objeto de estudo eram as experiências imediatas à consciência, utilizando como método a introspecção. Método esse, aliás, bastante criticado por suas imprecisões e falta de objetividade. Maiores subsídios às críticas foram oferecidos quando da realização do seu segundo objetivo: a criação de uma metafísica científica. Não é difícil imaginar, com efeito, o grau de reprovação que teve tal definição ante o paradigma positivista em voga naquela época. O positivismo Comtiano, que permeava as estruturas filosóficas das ciências naturais e humanas, inclusive, contrastava substancialmente com a proposição wundtiana de uma metafísica científica. Vale a nota de que para o pensamento positivista o estágio metafísico se encontra em um patamar inferior ao do estágio científico, no qual o conhecimento metafísico filosófico, através do método científico, se efetivaria como uma verdade.

Finalmente trabalhando sobre seu terceiro objetivo de vida, por volta de 1900, Wundt elabora sua Volkerpsychologie - Psicologia do povo ou Psicologia das massas - uma obra de 10 volumes onde o autor elabora sua Psicologia Social tendo como objetos de estudo, principalmente, temas como a Linguagem, Pensamento, Cultura, Mitos, Religião, Costumes e fenômenos correlatos. Surge daí a necessidade de repensar o método investigativo, uma vez que a experimentação introspectiva individual não oferece subsídios significativos quando se trata de fenômenos coletivos como os supracitados. Tendo em vista tais limitações, alguns proponentes positivistas da Psicologia Social como Allport, a despeito da mencionada obra de Wundt, consideram o surgimento da Psicologia Social somente a partir da publicação do Handbook of Social Psychology de Lindzey em 1954, uma obra cujo método se adequa consideravelmente ao cientificismo positivista das ciências humanas sociais.

Esses cortes históricos, que muitas vezes soam como medidas deliberativas de promover o positivismo em detrimento de outros métodos investigativos, fragmentam a consecução dos fatos e distorcem nossa compreensão acerca dos acontecimentos que levaram ao surgimento das escolas de pensamento em questão, evidenciando a falibilidade dos relatos históricos centrados em teorias e autores. Por outro lado, autores como Robert Farr destacam a importância de focar os fatos, instituições e pesquisas publicadas cuja influência foram determinantes para o surgimento e desenvolvimento de um determinado conhecimento e, posteriormente, de uma escola de pensamento derivada. Dessa forma, Farr destaca alguns fatos históricos cruciais que incidiram conspicuamente no desenvolvimento do que mais tarde se configurou como Psicologia Social. Ele destaca principalmente a importância das guerras ao afirmar que a Psicologia Social está para a segunda guerra mundial assim como os testes psicométricos estão para a primeira guerra mundial. A publicação do American Soldier(1949), tratando de temas como adequação de soldados à vida no exército, mudanças de atitude e comunicação em massa, é um bom exemplo de como o contexto do pós-guerra contribuiu no desenvolvimento científico daquela época.

Além de criar a necessidade de investimento de pesquisa em determinadas áreas da Psicologia Social, as guerras mundiais tiveram influência considerável no tangente à localização geográfica do florescimento desse ramo da Psicologia. O maior exemplo disso é a escola de Frankfurt de Ciências Sociais composta por nomes como Adorno, Horkheimer, Marcuse, Fromm, que imigraram para os Estados Unidos no período entre guerras, tendo inclusive realizado imediatamente após a imigração, o estudo da Personalidade Autoritária, um marco na Psicologia Social. Com base em tais fatos Farr afirma ser a Psicologia Social um fenômeno tipicamente americano, embora com raízes européias.

Dentre os precursores da Psicologia Social se destacam os Gestaltistas, cujos pressupostos filosóficos se apóiam na fenomenologia e os Behavioristas, que admitiam o positivismo como modelo. E foi justamente desse conflito entre filosofias divergentes que essa ciência emergiu nos Estados Unidos, dando origem a uma forte Psicologia Social Cognitiva.

No Brasil, por sua vez, assim como em quase toda América Latina, nas décadas de 60 e 70, a Psicologia Social se assemelhava à importada dos EUA. Em algumas obras da área ficava explícita a transposição e replicação de algumas teorias e métodos norte americanos, evidenciando uma total dependência do modelo pronto original. A esta falta de originalidade denominou-se, na época, de "crise de referência". Na década de 60, entretanto, se inicia um movimento de rechaço à essa dependência intelectual e várias associações começam a surgir engajadas na nova proposta de emancipação da Psicologia Social latino-americana. Dentre elas, destaca-se a ABRAPSO, Associação Brasileira de Psicologia Social, surgida em 1980 da iniciativa de alguns colaboradores, entre eles, Silvia Lane. Em 1984 Lane e Codo organizam a obra marco da emancipação da Psicologia Social Brasileira: "Psicologia Social: o homem em movimento", cuja discussão principal gira em torno de como extrair entidades psicológicas de fenômenos sociais, fortemente influenciada pelo materialismo histórico marxista. Também conhecida como Psicologia Marxista, tal corrente no Brasil rompe de vez com a Psicologia Social cientificista norte-americana e desde então as produções nessa área têm se desenvolvido de forma equiparada em termos de qualidade em relação ao restante do Ocidente.

Jadiel Matos.

Referências bibliográficas:

GUARESCHI, P; MAYA, P. V. & BERNARDES, J. Repensando a história da psicologia social: comentários ao curso de Robert Farr. Psico. Vol. 24, n. 2, p. 75-92, jul/dez, 1993.

NEVES STREY, M. [et al]. Psicologia Social contemporânea. 3 ed. Ed. Vozes, 2001.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?